“Sou afro-brasileiro puro/ é mulata a minha prole”

Tarsila do Amaral — Operários (1933).

Ontem estourou uma celeuma envolvendo a ativista negra e escritora Djamila Ribeiro.

A primeira parte deste texto aqui da Gabrielly Oliveira pode ser um bom ponto de partida para você que não sabe do que se trata.

Então vai lá, eu espero. Pode voltar quando ela começar a discutir encarceramento e abolicionismo penal, porque não pretendo abordar esse tema.

Gastei ontem uma parte considerável do meu dia discutindo esse lance no Tuíter porque sim, eu fiquei bem puto com a declaração da Djamila. Tão puto que embarquei na discussão sem avaliar direito o que estava em jogo — porque o texto dela só gritava pra mim que há negros e Negros, e que, portanto, pertenço ao primeiro grupo, o dos “negros pero no mucho” (que implica que eu também sou um “branco pero no mucho”).

Me incomodou porque faz sair, da “boca” da Djamila Ribeiro, pombas, DA DJAMILA RIBEIRO, a repetição (e alguma validação) da lógica do que eu chamei de “preto de Schrödinger”, que coloca pardos como negros o suficiente para tomar escracho e sofrer racismo, mas negros de menos para colar com os negros “de verdade”.

Sim, esse meu texto aqui é personalista pra caralho. Vou falar muito “eu” no correr das linhas. É importante marcar esse ponto porque este texto vai transitar o tempo inteiro entre dois pólos: a personalização e a massificação.

Sim, há outra coisa importante: pessoas negras de pele mais escura sofrem mais racismo. Quantitativa e qualitativamente. Não tenho aqui alguma pesquisa específica para corroborar o meu ponto, mas a gente pode citar Franz Fanon, que discute o impacto de ser mais “obviamente negro” na vida psíquica dos negros africanos em oposição aos negros americanos da Martinica, ou de Paris. Se Fanon estiver muito distante na memória, basta lembrar o caso da Nayara Justino, a Globeleza que era “negra demais” para o papel. Então, nesse aspecto da discussão, eu concordo totalmente com a Djamila. É preciso estarmos atentos, principalmente nós, negros da pele mais clara, para não reproduzirmos nas nossas relações essas estruturas discriminatórias do racismo estabelecido — na qual ser menos preto é melhor (inclusive, vale aí lembrar que muitos de nós, da pele-menos-escura, somos assim porque nossos pais e/ou avós, negros-da-pele-mais-escura, foram convencidos por uma estrutura racista, que o único caminho bom era “melhorar a raça”).

Nayara Justino, a Globeleza que era “negra demais”

Nessa toada, mulheres negras (retintas ou pardas) sofrem com questões das quais eu sei de ouvir falar, mas não vivenciadas por homens negros (retintos ou pardos). Assim como um homem negro homossexual (pardo ou retinto) passa por situações que eu, hetero e cis, não enfrento e mal compreendo. E uma travesti negra então? Uma mulher negra cadeirante? Soropositivo? Uma mulher negra mãe-solteira?

Espero que você tenha percebido o mecanismo: a particularização pode chegar ao infinito. Melhor, ao finito: posso particularizar tanto as minhas condições, que me darei conta de que não há igual a mim no mundo. Ninguém sabe o que eu sofro. Seja por ser afro-brasileiro, seja por ter a pele não-tão-escura, seja por ser de classe média-baixa, seja por vir de um bairro periférico… Evidentemente, as vicissitudes pelas quais passo em razão do que sou também tem um reflexo no espelho, um desenho invertido, e há coisas pelas quais passo por não-ser o que não-sou.

Nesse conjunto finito, há um buzilhão de coisas que só acontecem comigo porque eu sou eu. Por mais adesões e pertencimentos em comum comigo que um outro sujeito tenha, determinadas coisas acontecerão comigo em razão do arranjo único que construiu o Lucas Ed. Guimarães. Fim.

Essas situações são muitas? Acredito que não. Acredito que a maioria das coisas que me acontecem, alheias à minha vontade, também se dão alheias ao meu eu. Tipo quando o detector de metais do aeroporto “aleatoriamente” apita comigo e não com meus amigos; ou quando o segurança do supermercado está doido para dar uma atenção especial a mim ao invés de qualquer outro cliente; essas ações não se dão porque eu sou eu. Se dão porque no meu eu estão inclusos o fato de ser brasileiro, de ser negro, homem, de ser todas essas coisas e estar de chinelo ou camisa de futebol, etc.

Essas situações se dão não pelas minhas diferenças, mas pelo que eu tenho de igual aos outros. Não acidentalmente, um monte de gente, diante de uma discriminação absurda qualquer, tentam se sair com “Mas EU jamais faria uma coisa dessas!”. Não existe “eu” nessas horas, meu bem! Nessas horas, nós não estamos sendo julgados pelo que somos, mas pelo que pertencemos. Lucas Ed. Guimarães pode ser um trabalhador sério, respeitável, régio pagador dos seus impostos, tributável. Mas na cabeça daquele segurança do supermercado, não existe Lucas Ed. Guimarães: existe um homem afro-brasileiro, tatuado, de barba, mal-encarado e, portanto, num quadro de categorias que ele usa para ler e estar no mundo (chamadas representações sociais), eu sou equivalente a algo perigoso.

Espero não ter sido confuso demais.

Luigi Giussani, um pensador católico contemporâneo, dizia que o que de mais elementar existe em nós é o compartilhado, não o particular. Com isso não quero dizer que a individualidade não existe, e que deveríamos parar de falar de discriminação e vivermos juntos como irmãos, de mãos dadas e sorriso no rosto, porque raça não existe e somos todos iguais.

Mas a gente se revolta com o racismo (e o sexismo, e a homofobia, a xenofobia) justamente porque nos atravessa a percepção de que, por baixo das diferenças, somos sim iguais. É isso que está naquele diálogo espetacular entre o Lázaro Ramos e o Wagner Moura em “Ó paí, ó” (que na verdade é adaptado de um diálogo de “O Mercador de Veneza”, do Shakespeare:

O lance da discriminação (qualquer tipo) é que ela nos despersonaliza. Ela pega as piores facetas da igualdade que nos une — “Um vez fui agredido por um negão, preto é tudo violento” e generaliza. O problema que era de um homem, torna-se o problema dos homens negros.

(eu sei que tô simplificando muito. Porque o processo não é apenas “horizontal”, mas “vertical” — o racismo é muito mais transgeracional do que qualquer outra coisa. Mas me acompanha, é importante pro raciocínio)

Retomando o ponto, há coisas que acontecem comigo e com você porque somos eu e você. Tem coisas que acontecem comigo, mas acontecem também com outros homens pardos heterossexuais, porque somos homens pardos heterossexuais. Há coisas que acontecem com você e com, sei lá, outras mulheres retintas heterossexuais porque são mulheres retintas heterossexuais. Detalhe importante: individualidade e pertencimento não são categorias estanques e separadas. Há muito de uma na outra e vice-versa, a distinção é quase pedagógica. Eu, Lucas Ed., posso passar num concurso público disputado e minha pertença racial não ter nenhum efeito nisso. O candidato do meu lado pode não passar, e isso não acontecer porque ele é negro (e nisso estarem incluídas condições sócio-históricas que o privaram das condições materiais para ser aprovado).

Essa oposição entre ser e pertencer, entre indivíduo e grupo está no cerne do que eu quero discutir.

Sei que você leu o texto da Gabrielly, viu os prints de facebook e coisa e tal, mas vou reproduzir assim mesmo.

Fonte: https://www.facebook.com/djamila.ribeiro.1/posts/2533825846650958

Esse obviamente é o principal. Teoricamente, é uma resposta à Andreza Delgado, que criticou a Djamila por ter dito que “abolicionismo penal é coisa de branco” (e a julgar pelas citações que a Gabrielly faz, não foi isso que ela disse) e se revoltado por ter recebido uma notificação extra-judicial vinda do escritório de advogados negros da Djamila.

Espero ter ficado claro que, no que diz respeito às diferentes discriminações que sofrem negros retintos e de pele clara, não discuto. Sei que são diferentes, e não tenho motivos pra acreditar que não firam mais quanto mais negra for a vítima.

Meu ponto é: por que a Djamila Ribeiro optou pela massificação (e, portanto, despersonalização) da queixa, se sua autoria e vitimização são personalistas?

Em outras palavras: esses negros e negras de pele clara que atacam a Djamila Ribeiro o fazem porque ela é uma mulher negra retinta ou porque ela é uma mulher negra “pública”? Ao atacarem a Djamila, estão atacando-a por ser negra e retinta ou por ser Djamila Ribeiro (e ser negra retinta está contido aqui)? A Andreza se estranhou com a Djamila em razão da oposição “pele clara/retinta” ou da oposição “Andreza/Djamila”?

Personalista: eu acho que o caso é o segundo. Eu. Pode discordar se quiser, continua liberado.

Acho que o erro está em querer dar uma roupagem coletiva a uma situação personalista, porque esse movimento também coletiviza o agressor. Não foi a Andreza Delgado quem ofendeu a Djamila Ribeiro, foi uma mulher negra da pele clara ofendendo uma mulher negra retinta. Percebem onde quero chegar?

“Meus advogados, que são negros, colecionam prints de ataques que já sofri e, muitos deles, são feitos por negros e negras de pele clara. São ataques vis, exposição de fotos pessoais, misoginia, calúnias. Coisa bem baixa e criminosa.”

Levantar a incapacidade de muitxs negrxs de pele clara em perceber as vantagens de sua “passabilidade” (muitas vezes a pessoa passa por ser “quase branca”) é salutar. É fundamental para uma militância negra madura e forte. Mas se entendo que quem tá pisando na bola é um/a irmão/irmã, não é melhor eu chegar e chamar na responsabilidade ao invés de dizer que os irmãos/irmãs daquele tipo são racistas?

“Ei, prestenção! Olha no espelho aí, parça! Em festa de branco cê fica servindo drink enquanto eu manobro os carros! Não é porque você pode trabalhar do lado de dentro que é melhor do que eu, que tenho que trabalhar do lado de fora, não! Bora colar e dar jeito de nós dois podermos aproveitar a festa, caramba!”

Acho que existe uma diferença grande entre querer somar e subtrair. Porque subtrair me cheira a virada de mesa e só. Quando a Djamila fala da diferença entre “poder estrutural e acesso” (em psicologia social a gente diz de “mudança e mobilidade social”) ela me parece esquecer que esses negros e negras de pele clara que a ofendem não têm poder nenhum. Fazem o canto do prisioneiro. Porque essas pessoas têm acesso, fizeram a mobilidade, não têm poder real porque nenhuma mudança social aconteceu para lhes favorecer. Esses homens e mulheres de pele clara podem achar que o lugar dos negros de pele retinta é na subalternidade, mas para os brancos for real, é provavelmente como ver dois vira-latas brigando pelo mesmo osso. Há negros retintos que são profundamente racistas? MUITOS! Como poderia ser diferente? Há mulheres que são machistas? Homossexuais homofóbicos? Sim em todos os casos e pelo mesmo motivo: são sujeitos históricos nascidos numa sociedade racialmente/sexualmente/heteronormatizada! O lance é: não sei se um nome forte dos movimentos feministas vai julgar producente dizer publicamente que é um problema “muitas mulheres virem atacar porque não me curvo ao machismo”. Negros racistas são um problema porque existimos num ambiente racista. Por isso séculos atrás escrevi um texto sobre a necessidade de “suportarmos” o Fernando Holiday: ele é um sintoma do problema que quero extinguir, não o problema em si.

Meu incômodo é que o texto da Djamila parece querer separar, não dar um toque e chamar pra junto. Não de graça, vieram me chamar de “bege” quando critiquei sua postura. Já me chamaram de “pálido”, disseram que “não iam tirar a minha carteirinha de negro”, que eu “podia ficar tranquilo”. Fico esperando o dia em que vão dizer: “sai daqui, quem te disse que você é preto pra falar de racismo?.

Pra mim, o grande objetivo é a sensação de como esse tipo de raciocínio é pernicioso entre nós, negros dos mais diversos tons, e não pode nunca ser utilizado para nos separarmos. O problema dos negros retintos não são os negros de pele clara (e vice-versa), ainda que isso exista e machuque.

Inclusive, isso é uma constante: como somos passáveis, é realmente mais fácil que nós negros de pele clara vivamos e sejamos discriminados de maneira racista sem nos darmos conta disso. Porque é isso, somos passáveis. Um dia nos descobrimos negros e ter vivido até aquele dia sem sabermos disso pode ser um privilégio (ou não) do tipo que negros retintos nunca experimentarão. Mas quando eu digo que negros de pele clara podem colar com o discurso branco hegemônico, acabo reiterando esse pertencimento troncho que achamos que temos em função da pele menos-escura. De novo: isso é um sintoma do problema, não o problema em si.

O problema real é que existe uma geladeira cheia de bifes apetitosos enquanto nos fazem brigar por conta de um osso…

P.S.: Queria agradecer à Juliana (@jujujuscj no Twiter). Estava full pistola com essa parada ontem e, em meio a um zizilhão de tuítes soltando os cachorros sobre o assunto, ela me obrigou a pôr a bola no chão e trouxe a discussão do colorismo de um jeito que eu não tinha encarado. Foi fundamental para que eu retomasse o post da Djamila e fosse além do incômodo inicial. Obrigado mesmo!

O Poderoso Porco do MdM. Investigador de polícia, mestre e doutorando em Psicologia Social/UFMG, professor universitário. https://linktr.ee/lucas.edp

O Poderoso Porco do MdM. Investigador de polícia, mestre e doutorando em Psicologia Social/UFMG, professor universitário. https://linktr.ee/lucas.edp